A atenção à saúde da mulher e da criança nos tempos da Zika no Brasil
Autor: Luis Eugenio de Souza - Instituto de Saúde Coletiva da UFBA
Publicado em: 12 de abril de 2016
Atualizado em: 5 de janeiro de 2022
Nos últimos 30 anos, especialmente depois de iniciada a implantação do Sistema Único de Saúde (SUS), a atenção à saúde materna e infantil melhorou muito, com avanços inegáveis. Persistem, contudo, alguns problemas importantes. Em artigo publicado na revista Lancet, Victora et alii (2011) apresentam informações que sintetizam os progressos e os desafios relativos à saúde de mães e crianças.
A duração mediana da amamentação aumentou de 2,5 meses nos anos 1970 para 14 meses em 2006-07. As taxas de mortalidade maternal, durante os últimos quinze anos, tiveram uma redução anual de 4%. O acesso à contracepção, à atenção pré-natal e aos cuidados durante o parto aumentou substancialmente entre 1986 e 2006–07. A cobertura vacinal também aumentou, chegando perto da universalidade. Oitenta por cento das crianças menores de 5 anos vivem em casas que têm água tratada proveniente da rede pública. A hidratação oral durante episódios de diarreia aumentou rapidamente nos anos 1980 e 1990 e permaneceu estável desde então.
Além dos altos níveis de cobertura das intervenções, as desigualdades socioeconômicas foram reduzidas entre 1996 e 2006-07. Em 1996, 71,6% das mulheres do quinto mais pobre receberam atenção durante o parto por pessoal treinado, em comparação com 98,1% das mulheres do quinto mais rico; já em 2006– 07, as respectivas coberturas foram de 96,8% e 99,5%. No mesmo período, a prevalência do uso de contraceptivos aumentou de 55,8% para 86,0% no quinto mais baixo de renda e de 76,8% para 87,3% no quinto mais alto. A proporção de crianças do quinto mais pobre que receberam atenção de saúde durante um episódio de febre e tosse aumentou de 33,4% em 1996 para 49,1% em 2006–07, enquanto entre as crianças do quinto mais rico essa proporção se manteve estável, pouco maior que 60%.
Apesar desses altos níveis de cobertura, a qualidade da atenção materna e infantil é baixa. Alguns estudos mostram, por exemplo, que, apesar de uma média de mais de oito consultas pré-natais, metade das mulheres da cidade de Pelotas não teve suas mamas examinadas durante as consultas, e uma em cada quatro mulheres não foi submetida a um exame da região pélvica – embora 98% tenham realizado um ou mais exames de ultrassom abdominal. Dados de um inquérito nacional mostraram que somente 62% das mulheres que deram à luz em estabelecimentos do setor público tinham os resultados de um teste de rotina para HIV registrados em seus prontuários, com importantes desigualdades na cobertura por nível educacional e raça. No Rio de Janeiro, onde a hipertensão arterial é a principal causa de morte materna, estudo amostral de mulheres que se internaram para o parto revelou que somente uma em cada quatro teve sua pressão arterial aferida durante o trabalho de parto. Existe, assim, um grande paradoxo no país entre a medicalização abusiva e o uso insuficiente de medidas simples, mas de comprovado valor preventivo, como o exame físico de mamas e pelve e aferição da pressão arterial.
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