A arte de partejar: o legado das parteiras tradicionais como herança ancestral e os impactos para a saúde das mulheres

Autor: Cristiane dos Santos Silva
Publicado em: 31 de maio de 2016
Atualizado em: 7 de janeiro de 2022

“No parto abençoo à minha mãe… e me curvo à minha mãe” (Tiganá Santana)

 

Ao iniciar a escrita desse texto me vem à memória algumas lembranças da infância no interior de Feira de Santana, onde nasci e me criei. Nas vivências dos dias em que ia para a roça (zona rural) com minha mãe, mais precisamente em Matinha dos Pretos, comunidade quilombola de onde se origina minha família materna, me recordo com carinho de “Mãe Piu”, parteira tradicional da comunidade chamada de Mãe por todos naquela região em sinal de honra e respeito àquela que amparava as crianças que ali nasciam por suas mãos. Uma mulher negra, de baixa estatura, idosa, de andar ligeiro, fala mansa, riso fácil, e muita sabedoria: “a mãe de umbigo”.

Em seguida algumas cenas vêm como flashs. Estrada de chão… Um candeeiro aceso… Uma bacia de alumínio, um pote de água no canto da parede… O fogão de lenha… Muitas mulheres entrando e saindo da casa humilde… Crianças brincando no terreiro… “Mãe Piu” transita pela casa… O grito de uma mulher a parir… O choro de criança nascendo… Aí minha mãe se aproxima e me diz: “olha lá no céu, a cegonha trouxe o neném”. Aos 10 anos de idade tive aula de ciências, e então soube de fato como as crianças vinham ao mundo!! (rsrsrs).

O nascimento é o desfecho de um evento biológico, natural, social e familiar, essencial à manutenção da espécie humana. Desde o surgimento dos seres humanos, a arte de partejar foi desenvolvida pelas mulheres, sendo os saberes e práticas por elas desenvolvidos, transmitidos de umas para as outras, em forma de conhecimento e herança ancestral. O ato de partejar, executado pelas parteiras, é mediado pela cultura, e está fortemente ligado aos sistemas de valores, crenças e costumes de um determinado grupo. Neste sentido, as parteiras tradicionais são mulheres que possuem vínculos com as mulheres e com as famílias da comunidade onde habitam, sendo, portanto, parte daquela realidade sociocultural e o momento do parto, por sua vez, faz emergir lembranças da nossa ancestralidade.

Segundo Suelly Carvalho, parteira tradicional que atua no Nordeste brasileiro e idealizadora da ONG Cais do Parto, que fica em Pernambuco, “o parto tradicional, herança ancestral, permite a interação social, conta a história de um povo; reforça suas crenças, expõe suas emoções, define suas relações sociais e reafirma a identidade sociocultural coletiva; este sistema de pertinências e significados se manifesta no parto. Assim o modo como se nasce; o local onde se nasce; a prática na forma de dar à luz e nascer e quem atende o parto é tão importante quanto o próprio ato de nascer, passando a integrar a memória sociocultural de uma família e de uma comunidade”.

O desenvolvimento técnico-científico, o surgimento da Obstetrícia Moderna e a institucionalização do saber e das práticas das parteiras ao longo dos anos desapropriou o conhecimento tradicional das parteiras e o transferiu para instituições hospitalares e profissionais de saúde como médicos e enfermeiras. O parto passou a ser um campo de saber médico, técnico-científico e institucionalizado, atendendo a uma lógica hospitalocêntrica que insiste em orquestrar ações de intervenção e medicalização dos corpos das mulheres, retirar o protagonismo delas no processo parturitivo e submetê-las a situações de violência obstétrica.

O ato de partejar, antes considerado uma prática exclusiva das mulheres, foi sendo gradativamente expropriado enquanto campo de saber e poder feminino, passando a ser visto como um conhecimento inferior à medida que o olhar androcêntrico das ciências tornou-se hegemônico ao produzir o campo de saberes sobre o corpo das mulheres, institucionalizando o parto. A partir daí o processo parturitivo deixou de ser um acontecimento da vida das mulheres, das famílias e da comunidade para se tornar um evento hospitalizado, medicalizado, cirúrgico, doloroso e violento e o saber médico foi legitimado em detrimento dos saberes e práticas tradicionais das parteiras.

 

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