18 de fevereiro de 2020

Entrevista de fevereiro: Jarbas Barbosa

Autor: Inês Costal e Patrícia Conceição


O surgimento acelerado de casos do novo coronavírus, que levou a Organização Mundial de Saúde (OMS) a decretar Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional, é o tema principal da entrevista de fevereiro do Observatório de Análise Política em Saúde (OAPS), que tem como convidado o médico sanitarista, epidemiologista, professor e vice-diretor da Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS/OMS), Jarbas Barbosa. O ex-diretor-presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e ex-secretário de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos do Ministério da Saúde comentou sobre a importância de combater as fake news com informações baseadas em evidências científicas, os esforços internacionais diante do surto e as respostas dos sistemas de saúde, que enfrentam o desafio de lidar com emergências de saúde pública sem deixar de priorizar os demais problemas e demandas. Abordou ainda o papel do sistema de Vigilância em Saúde - que, segundo Barbosa, é “bem consolidado” no Brasil - e a relevância de fortalecer a Anvisa como autoridade regulatória autônoma. Sobre a conduta brasileira diante do novo coronavírus, afirmou: “Todas as medidas que o Ministério da Saúde tem tomado, desde o alerta do sistema de vigilância à preparação dos laboratórios de referência, são as medidas adequadas para esse momento em que não se tem transmissão no Brasil”. Boa leitura!

 

Observatório de Análise Política em Saúde: O aumento dos casos do novo coronavírus (nCoV-2019), registrados desde 31 de dezembro de 2019, tem provocado alerta em diversos países e muita divulgação sobre o tema, além de diversas fake news. Qual o panorama mostrado pelas informações disponíveis sobre esse surto?

 

Jarbas Barbosa: Trata-se de uma situação que exige a atenção de todos os países porque é um vírus novo, que seguramente produz casos graves – o que pode sobrecarregar os sistemas de saúde, as emergências, as unidades de terapia intensiva - e tem uma capacidade de disseminação que já está bem demonstrada. Por isso é muito importante que todos os países mantenham o alerta, num primeiro momento para identificar casos importados e aplicar políticas de contenção. E, se essas medidas de contenção não forem suficientes, terem a capacidade de rapidamente adaptar para medidas de mitigação, de maneira que os serviços de saúde estejam preparados, que se evitem pelo menos os casos mais graves e as mortes. Então é muito importante manter o alerta, a preparação e acionar todos os mecanismos de vigilância em resposta que os países têm.

 

A comunicação tem um papel muito importante. Em qualquer situação como essa, de um vírus novo, uma doença nova, as pessoas ficam ansiosas para terem informação, saberem o que está acontecendo. Também é um terreno muito fértil para disseminar notícias falsas, boatos, rumores, drogas milagrosas, teorias da conspiração. A melhor maneira de se combater isso é com informações baseadas em dados científicos, em evidências, e os Ministérios da Saúde têm um papel muito importante de manter sempre a comunicação fluente com a população e com os profissionais de saúde para que estas notícias falsas não prosperem.

 

Observatório de Análise Política em Saúde: Quais são as principais lacunas de informação sobre o novo coronavírus e quais iniciativas para obter mais respostas estão sendo desenvolvidas? E quais ainda precisam ser colocadas em prática?

 

Jarbas Barbosa: Ainda há lacunas importantes para se conhecer sobre o novo coronavírus, como qual é o verdadeiro peso do largo espectro que ele tem - quantos casos são leves, quantos casos são sintomáticos, quantos casos são severos. Toda doença no início tem um conhecimento limitado porque os casos mais graves são aqueles que são detectados; por isso a própria taxa de letalidade tem que ir sendo ajustada ao longo do tempo.

 

Fora isso, há um programa muito importante que envolve vários centros do mundo que estão buscando desenvolvimento de vacinas e estudos clínicos para avaliar a eficácia de alguns antivirais e antirretrovirais já existentes. Eu diria que há algo como uma corrida em busca de vacinas ou medicamentos eficazes, o que pode em um curto prazo até ser uma arma importante para atenuar os riscos dessa nova doença.

Observatório de Análise Política em Saúde: No final do mês de janeiro a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou que o novo coronavírus é uma Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional. A divulgação da medida foi acompanhada de orientações e recomendações aos países, que vão desde o compartilhamento de informações e aceleração de pesquisas até a não limitação de comércio e do movimento de pessoas. Essa resposta tem sido adequada para o tamanho do surto?

 

Jarbas Barbosa: A decretação da nova doença nCoV-2019 como emergência de saúde pública de importância nacional possibilita uma mobilização maior de recursos internacionais, uma maior articulação dos esforços internacionais para conter a doença, principalmente na China, que é a fonte original da doença e o país mais afetado. Sem dúvida que o nível de alerta é elevado desde o início porque é uma doença nova, que tem capacidade de propagação internacional e de produzir casos graves e mortes.

 

Todos os países devem manter esse nível de vigilância alerta, aplicar seus planos de preparação para emergências, verificar a adaptação desse plano para as características da nCoV-2019 de maneira que os profissionais e serviços de saúde estejam preparados para a detecção rápida e a resposta adequada, na eventualidade de chegar um viajante internacional. No mundo de hoje muito conectado, considerando que a China é um grande parceiro comercial de quase todos os países do mundo e a região onde o número de casos é mais importante – Hubei - é uma província chinesa que tem muitas empresas multinacionais com muito intercâmbio comercial, a chance de chegar um viajante internacional é muito elevada para qualquer país do mundo e por isso todos devem estar preparados.

 

Observatório de Análise Política em Saúde: O governo brasileiro aprovou no dia 6 de fevereiro a lei nº 13.979, que dispõe as medidas para enfrentamento do surto de coronavírus. A regulamentação e a operacionalização da lei devem ser encaminhadas por atos editados pelo Ministério da Saúde. Como você avalia a medida?

 

Jarbas Barbosa: O Ministério da Saúde do Brasil está implementando todas as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) para a melhor maneira de lidar com essa emergência, preparando seu sistema de saúde, mantendo os estados e municípios alinhados tecnicamente para que a resposta seja única, divulgando informações nos aeroportos. Todas as medidas que o Ministério da Saúde tem tomado, desde o alerta do sistema de vigilância à preparação dos laboratórios de referência, são as medidas adequadas para esse momento em que não se tem transmissão no Brasil. A expectativa é que se chegar algum viajante internacional – o que é uma possibilidade concreta – isso seja detectado rapidamente e as medidas de contenção sejam adotadas.

 

No caso do Brasil é importante sempre alertar que um viajante internacional muitas vezes irá procurar um serviço privado quando apresentar qualquer sinal ou sintoma, então é muito importante que, além da rede pública, também os serviços privados estejam bem alertas, conhecendo o que se deve fazer, a quem se deve notificar, medidas de isolamento e de vigilância que devem ser adotadas quando ocorrer essa possibilidade.

 

Clique aqui para ler a entrevista na íntegra.



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