01 de junho de 2017

Entrevista do mês de junho: Paulo Amarante

Autor: Inês Costal e Patrícia Conceição


Doutor em Saúde Pública pela Fundação Oswaldo Cruz, professor e pesquisador do Departamento de Direitos Humanos, Saúde e Diversidade Cultural da ENSP/Fiocruz, pesquisador do Laboratório de Estudos em Saúde Mental e Atenção Psicossocial (LAPS/ENSP/Fiocruz) e presidente honoris da Associação Brasileira de Saúde Mental (Abrasme), Paulo Amarante é o entrevistado do mês de junho do Observatório de Análise Política em Saúde (OAPS). O vice-presidente da Abrasco conversou com a equipe do OAPS sobre o aumento das situações de sofrimento mental em contextos de crise, a importância da organização do cuidado na atenção básica, os riscos da medicalização e de crescimento do mercado de antidepressivos. “Há aumento sim de sofrimento, ansiedade, depressão, angústia, insônia, ideias de suicídio e, portanto, as pessoas precisam ser ajudadas efetivamente. Tem que se pensar as causas coletivas desses fenômenos e não considerá-los situações individuais de sofrimento, de doença e de certos transtornos”, alerta. Autor de títulos como "Loucos pela vida: a trajetória da reforma psiquiátrica no Brasil", Paulo tratou das recentes ameaças de retrocesso no campo da saúde mental e fez críticas à redução da reforma psiquiátrica, considerada “muito burocrática e administrativa”. “Nós não desejávamos, não desejamos fazer uma reforma meramente de serviço, de modelo assistencial, em que pese a grande importância, claro, da extinção do modelo manicomial. [...] Mas, para além disso, é importante ter uma ação, digamos, política e cultural de transformação da relação que a sociedade tem com as pessoas consideradas loucas, diferentes, diversas, com transtornos, com diagnósticos psiquiátricos”, arrematou. Leia a entrevista completa!

Observatório de Análise Política em Saúde (OAPS): Uma nota técnica lançada pelo Ipea - Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, em agosto do ano passado, se debruçou sobre estudos que analisam os impactos da crise na saúde em diversos países. A nota aponta efeitos negativos sobre a situação de saúde das populações, inclusive na área de saúde mental, como aumento de ansiedade, depressão e dificuldade para dormir, além de mais casos de suicídio, como observado na Grécia. Diante da atual conjuntura brasileira de crise e implantação de medidas de austeridade, quais impactos podemos esperar no quadro de saúde mental dos/as brasileiros/as?

Paulo Amarante: Realmente, em situações de crise, como em situações de pós-guerra e situações de conflitos, as situações de sofrimento mental aumentam muito. Nas situações de crise, seja na Grécia, como esse informe do Ipea mencionou, sejam em outros países da Europa ou no Brasil, aumentam as sensações de desesperança, de perda de um projeto ou de diminuição das perspectivas. Tudo, evidentemente, leva à sofrimento mental, com repercussões no âmbito da subjetividade das pessoas. Agora, a grande observação nessa pergunta, eu acho, é que isso não é necessariamente sinônimo de transtorno mental. Na maioria das ocasiões isto não é sinônimo de doença mental. Estar triste, estar sem esperança, sem expectativas, com um futuro sombrio não significa depressão, no sentido estrito, no sentido psicopatológico. Então esse é o momento em que os profissionais, a sociedade, as pessoas mesmo têm que tomar muito cuidado para não transformar o que é consequência de uma situação de crise, de insegurança, de instabilidade, em uma situação psicopatológica porque a crise, também a depressão no sentido mais amplo da experiência de vida e do sofrimento, são necessárias para que as pessoas reflitam, se reorganizem. A crise é exatamente isso, essa possibilidade de colocar em xeque determinados princípios, determinadas ideias e questões e se reorganizar.

Se você responde exclusivamente com medicamentos, você não só retira da própria pessoa a sua capacidade de auto-organização, de autodefesa, de autoajuda, como também pode criar uma situação de dependência. O nosso artigo sobre a questão da depressão esse ano [“Vamos sim, conversar sobre a depressão”] chama a atenção para isso: os antidepressivos causam grande dependência, boa parte das pessoas que tomam antidepressivos têm crises quando suspendem o uso. A ‘crise’ após a suspensão do antidepressivo não significa que a depressão tenha se agravado. São crises de abstinência, síndromes de abstinência, assim como por outras drogas ditas ilícitas. As drogas psiquiátricas também criam muita dependência e produzem abstinência quando descontinuadas. A suspensão de um antidepressivo é um processo difícil e muito delicado.

Por outro lado, você retirar algo que é do campo social, do político ou do econômico e transformar para o campo individual da patologia, esse é o grande problema da medicalização – medicalização entendida não só como eventual prescrição de medicamentos, mas como a transformação da natureza de um fenômeno, que deixa de ser predominantemente econômico, social ou cultural para se tornar algo predominantemente ou exclusivamente da ordem do biológico, do orgânico. É transformar algo em um problema médico. Esse é o grande cuidado que tanto as agências e instituições de saúde (mesmo as bem-intencionadas), quanto os profissionais têm que perceber. Há aumento sim de sofrimento, ansiedade, depressão, angústia, insônia, ideias de suicídio e, portanto, as pessoas precisam ser ajudadas efetivamente. Tem que se pensar as causas coletivas desses fenômenos e não considerá-los situações individuais de sofrimento, de doença e de certos transtornos.

Observatório de Análise Política em Saúde (OAPS): Outra questão apontada pela nota é a maior procura pelos serviços de saúde durante períodos de crise. Especificamente na área de cuidados em saúde mental, como você avalia que o Sistema Único de Saúde (SUS) responderia a um possível crescimento da demanda por atendimento?

Paulo Amarante: A questão da maior procura por serviço de saúde mental nesse período de crise, em decorrência dessas situações, é real. É importante que as pessoas que sintam algum tipo de sofrimento, de mal-estar e de desamparo sejam ouvidas, escutadas, tratadas e cuidadas. Não necessariamente esse cuidado, como eu disse, deva ser medicamentoso e específico, especialístico, no sentido de ter um psiquiatra responsável ou outro profissional psi. Por isso a grande porta de entrada da atenção, do cuidado e do acolhimento desses sujeitos com esses sofrimentos difusos, essas situações mais gerais, é a atenção primária. Aspecto que não organizamos suficientemente bem no Brasil. Criamos uma rede razoável, mas também não suficientemente adequada, de CAPS - Centros de Atenção Psicossocial, que são para situações mais complexas ou mais específicas. Mas esse tipo de cuidado deveria ser organizado fundamentalmente na rede básica, na atenção primária, por equipes de saúde da família, agentes de saúde, agentes comunitários e que pudessem ter um tipo de orientação, supervisão ou matriciamento. Não é à toa que as pessoas nessas situações também procuram outros recursos, outros dispositivos. As igrejas estão lotadas, as pessoas estão procurando outras formas de ajuda comunitária. É uma saída importante, não é questão de concordar ou não, mas por exemplo, as pessoas se organizam em coletivos – coletivos de idosos, de pessoas relacionadas a algum grupo, algum trabalho, alguma atividade cultural no seu bairro, na sua instituição – são saídas importantes, pensar sempre que essas situações não são sinônimos de patologia, mas precisam de cuidados, precisam de atenção. Por esse motivo as saídas coletivas são muito importantes.   

Clique aqui para ler a entrevista na íntegra.



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