Ano 2 • Edição nº 4 • Março/Abril 2016
 

Prezados leitores e leitoras,

A quarta edição do boletim informativo do Observatório de Análise Política em Saúde (OAPS) e do Centro de Documentação Virtual (CDV) dá voz e rosto para jovens pesquisadores e pesquisadoras, estudantes de graduação, mestrandos/os e mestres, doutorandos/as e doutores/as que contribuem cotidianamente para a construção e aprimoramento do Observatório e do CDV. Neste espaço, eles contam um pouco sobre suas trajetórias acadêmicas e de vida, a relação com colegas e pesquisadores/as experientes, e como o trabalho tem colaborado para a formação como pesquisadores/as e cidadãos/as.

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Boa leitura!

 

Vozes e rostos do Observatório e do CDV: Conheça jovens pesquisadores/as que fazem parte do projeto

As histórias de vida e as trajetórias acadêmicas destas/es pesquisadoras/es são diversas e cada uma delas guarda suas peculiaridades e surpresas. No Projeto Análise de Políticas de Saúde no Brasil estas trajetórias se cruzam e surgem objetivos, preocupações e paixões em comum. Para alguns esta é a primeira experiência em pesquisa, outros já acumulam uma longa trajetória, apesar da juventude. Para a maioria, a experiência ultrapassa os limites da pesquisa acadêmico-científica e transborda para a vida, o entusiasmo pela saúde coletiva, o olhar crítico-reflexivo e a luta por um sistema de saúde universal e para todos/as. Nossa equipe de reportagem entrevistou alguns dos/as jovens pesquisadores/as que colaboram para que o Observatório de Análise Política em Saúde e o Centro de Documentação Virtual sejam realidade.
 
 
 
Nília Maria de Brito Lima Prado
"Há um tempo escrevi, e hoje reafirmo, que o ISC é um lugar mágico, e tenho o privilégio de estar sendo ‘contaminada’ (no melhor sentido) por esta magia, este encantamento coletivo, possível e concreto deste espaço sublime de luta, de construção de utopia e formação de atores críticos reflexivos. E, com certeza, este sentimento e aprendizado serão para a vida toda!".

Doutoranda em Saúde Coletiva, professora da UFBA/IMS e pesquisadora do eixo "Estudos e Pesquisas em Atenção Primária e Promoção da Saúde" (APS), Nília Prado participa do projeto Análise Política em Saúde desde sua implantação. Seu projeto de tese, intitulado "Análise de implantação de uma intervenção intersetorial para promoção da saúde em sistemas locais", integra o projeto "Desenvolvimento e avaliação de intervenção intersetorial para promoção da saúde de adolescentes no âmbito da Estratégia Saúde da Família" (intervenção PROSE – Promovendo Saúde na Escola), coordenado pela Profª Rosana Aquino.

Nos últimos três anos e meio, Nília esteve envolvida em atividades acadêmicas diversas (elaboração de instrumentos de coleta de dados, processamento e análise de dados, produção de relatórios, artigos científicos e capítulos de livros, participação em eventos científicos nacionais e internacionais) e tem contribuído para a construção e atualização dos tópicos de monitoramento e análise do eixo de APS, coordenado pela Prof.ª Maria Guadalupe Medina, através do acompanhamento sistemático e processual das políticas.

Entre os principais desafios nesse período, Nília destaca a experiência no grupo operativo do Observatório que, para ela, proporcionou interlocuções interdisciplinares desafiadoras. "Deparamo-nos com o processo de construção de um site, com as linguagens próprias da área da informática, design e comunicação, que permitiu uma ampliação do olhar e de como o espaço da saúde coletiva é complexo e instigante. E confesso, esta experiência me transformou em uma pessoa muito mais capaz de superar novos desafios, sejam de caráter acadêmico ou pessoal! Agradeço imensamente ao Prof. Jairnilson e a Prof.ª Guadalupe por esta oportunidade! Agradeço também aos meus colegas do grupo operativo, que demonstraram que com perseverança e muita competência conseguimos atingir nossos objetivos, não importando quantos éramos (e éramos poucos, mas com a garra de muitos)", relata.

Na entrevista para o boletim, Nília conta que a atuação como pesquisadora do eixo de APS e integrante do grupo operativo do OAPS foi fundamental não apenas para o aprofundamento teórico das questões referentes à saúde coletiva, sobre o uso de teorias sociológicas na interpretação dos contextos locais, por exemplo, mas também proporcionou "uma experiência ímpar para a vida acadêmica e profissional" por permitir a aproximação com os pesquisadores e militantes da Reforma Sanitária Brasileira, do SUS e da Atenção Primária à Saúde. "São pesquisadores que conseguem transmitir, além do conhecimento e entusiasmo pela área, motivações que perpassam os ideais acadêmicos e se alojam nos ideais de luta na militância no processo de construção coletivo do nosso Sistema de Saúde", entusiasma-se.

Para Nília, a relação constante com pesquisadores renomados da sua área de estudo tem permitido a instigação constante pela busca de conhecimento e um aprofundamento das questões relacionadas às políticas e aos estudos relacionados não somente ao eixo temático ao qual está vinculada, mas também a questões abrangentes e transversais da área da saúde coletiva. "A convivência com os pesquisadores de referência faz toda a diferença na vida acadêmica de um pesquisador iniciante, pois admite que possamos compreender in loco a necessidade de aliar rigor metodológico, precisão científica e valorização da subjetividade e dos complexos sentidos dos fatos sociais. As análises advindas dessa aproximação têm permitido descortinar especificidades locais, regionais e no âmbito nacional, e possibilitado reavaliações e novas interpretações metodológicas e do quadro teórico para os objetos de estudo, em voga. Sinto-me motivada a aprofundar o estudo de diversas questões, tendo como reflexo a garra, a competência e a luta destes guerreiros da Saúde Coletiva Brasileira", afirma.


João Henrique Araújo Virgens
"As ciências não são estáticas e seus processos de construção se dão por enfrentamentos. Considero que o principal fator para considerar a experiência de um pesquisador não é tempo de trabalho, mas sua ousadia de ser crítico e sua coragem de assumir um papel protagonista na constante renovação da práxis científica. A iniciativa do Observatório é um exemplo claro dessa ousadia, ao propor a criação de um canal de compartilhamento e de diálogo com outros sujeitos que estão em busca da construção de sua criticidade e não se contentam com informações seletivas ‘ofertadas’ pela mídia tradicional."

"O ambiente criado pelo Observatório possibilita o choque entre diferentes vivências e experiências e isso é o que há de mais rico". Doutorando em Saúde Coletiva no ISC/UFBA e pesquisador vinculado ao eixo "Análise do Processo da Reforma Sanitária Brasileira no Período 2007 a 2016", João Henrique se entusiasma ao comentar o trabalho no projeto e o acompanhamento diário de fatos marcantes relacionados às políticas de saúde.

Para ele, a atividade está diretamente vinculada a um processo de análise política que, no Observatório, assume um caráter científico e exige a articulação de um referencial teórico-metodológico e de técnicas de pesquisa, com consequências definidoras daquilo que pode ser considerado como fato. "Isso determina como se dá a procura pelos fatos e como eles serão analisados. Assim, o diálogo com teóricos faz toda a diferença e possibilita sair da mera opinião compartilhada cotidianamente para desenvolver um processo preocupado com um apurado rigor científico", acredita. Essa preocupação no processo de produção do Observatório, segundo João, colabora para dar mais credibilidade aos conteúdos compartilhados.

"A análise de fatos tem o limite de evidenciar apenas aquilo que pode ser conhecido a partir dos meios escolhidos e do direcionamento do olhar. É possível identificar fatos tanto de maneira indireta, por meio do acompanhamento de diferentes tipos de mídia (que por vezes é definidora ou partícipe privilegiada da produção de fatos) e de outras fontes, como de maneira direta, por meio do acompanhamento de sujeitos capazes de produzi-los, seja no interior do Estado, fora dele ou contra ele", explica.

João Henrique acredita que uma das contribuições mais importantes no processo de aprendizagem enquanto pesquisador é o cuidado e a atenção para diferenciar a mera opinião de uma produção que se pretenda superar esse estágio e se tornar radicalmente crítica, inclusive diante das escolhas feitas pelos pesquisadores. "A experiência contribui para evitar escolhas incoerentes com o processo científico e incentivar a radicalidade dessa produção", diz.

Soma-se a isso a oportunidade de participar de um projeto que envolve pesquisadores de diversos centros de pesquisa. "Em algumas situações nos isolamos em nossas pesquisas, mas a oportunidade que o Observatório dá é de construir junto e criar conexões com um projeto muito mais amplo. Essa condição facilita conectar os recortes parciais feitos por cada projeto com uma análise mais ampla feita pelo conjunto de pesquisas que se interconectam e se apoiam. Os aprendizados decorrentes do acesso direto a pesquisas em andamento ou finalizadas contribui para nossas produções, de maneira a promover um ciclo intenso de trocas de experiências. Ou seja, o aprendizado deixa de ser individual e passa a ser construído um processo contínuo de diálogos radicais". E complementa: "Essa é uma das minhas maiores motivações: a oportunidade de aprender com os experientes e os recém-chegados. Todos com contribuições muito pertinentes para o todo."


Paloma Silveira
"Esta relação entre gerações distintas [de pesquisadores] proporciona isto, entender e agir no presente, a partir da compreensão do passado, para projetar um futuro. Com isso vamos percebendo como nossas vidas individuais estão entrelaçadas, por completo, com o contexto sócio-histórico mais amplo. Vão sendo erigidas e reconhecidas nossas responsabilidades enquanto sujeitos dessa história".

Para Paloma Silveira, o acompanhamento e a discussão sobre a realidade em busca de uma visão crítica, "um processo sempre ideológico", pode gerar dois resultados: a conservação dela ou sua transformação. A pesquisadora, há quase dois anos no Projeto Análise Política em Saúde, acredita que o acompanhamento da realidade, sua interpretação usando diferentes referenciais teóricos e o debate sobre ela é uma das funções principais das pesquisas científicas realizadas nas universidades. "No país em que vivemos, marcado por uma desigualdade social histórica, acredito que todo conhecimento deva ser produzido para transformação dessa desigualdade, consequentemente, para a construção de uma sociedade mais justa e igualitária, e que esta seja, realmente, para todas as pessoas".

Integrante do eixo "Análise do processo da Reforma Sanitária Brasileira no período de 2007 a 2016", Paloma já desempenhou diferentes funções e atividades – coleta de dados sobre notícias relacionadas à saúde, acompanhamento e análise das notícias publicadas pelos sites do Ministério da Saúde e da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), discussão do acompanhamento de outros sites para compreensão da conjuntura em saúde, coordenação de um grupo de estudos para discussão de temas relacionados à Saúde Coletiva, além da atualização da linha do tempo do eixo e produção dos textos para a Matriz de Acompanhamento do OAPS. Paloma também desenvolve uma pesquisa com o tema "A Participação do Movimento Feminista Brasileiro no processo da Reforma Sanitária Brasileira".

A trajetória de pesquisa de Paloma é relacionada a temas feministas – violência contra as mulheres e direitos sexuais e reprodutivos – e a aproximação com a área de Política, Planejamento e Gestão é recente. Após concluir o doutorado, a pesquisadora recebeu o convite para atuar no OAPS. "Muitos desafios apareceram e o medo de não dar conta também. Entretanto, o fato de acreditar no projeto do Observatório e entendê-lo como uma importante ferramenta para a construção de um olhar crítico sobre as diferentes dimensões da saúde tem, cada vez mais, me proporcionado um crescimento pessoal e profissional, como também injetado motivações".

A comparação com o que está previsto nas leis, normas e políticas ao que acontece na prática na implementação de uma política permite perceber "os desafios e os diferentes interesses em jogo, as correlações de forças e apontar os possíveis caminhos para as políticas: que estas não percam de vista o horizonte do interesse coletivo", acredita.

Para Paloma, é importante um olhar menos ingênuo sobre a realidade social e pensar no horizonte com transformações coletivas e projeção de cenários futuros. "O trabalho no Observatório tem me proporcionado isto, além de uma compreensão da totalidade social: os diversos aspectos sociais interligados, como se fosse uma teia. [...] O perfil que vem sendo construído, a cara do Observatório, explicitada nas suas publicações, apresenta leituras da realidade tentando dar conta da complexidade e indo além das aparências, o que me motiva não apenas a ler por ossos do ofício, mas também conhecer mais sobre determinados assuntos e sobre temas distintos da minha trajetória".


Jamilli Silva Santos
"Aprendi muito mais do que imaginei enquanto uma mestranda de programa de pós-graduação em saúde coletiva. Muito além do importante e vasto conhecimento técnico proporcionado pelos dois anos do curso e do trabalho no OAPS, também aprendi quão essencial é que ele seja politicamente comprometido. Tive o imenso prazer de trabalhar e aprender com grandes referências da Saúde Coletiva a pensar, criticar, estudar, escrever, pesquisar, enfim, aprendi com eles a fazer pesquisa científica de qualidade e a pensar criticamente a saúde, a sociedade e o mundo no qual vivemos, revelando horizontes antes desconhecidos sobre os quais precisamos lutar."

O acompanhamento da conjuntura das políticas de saúde e sua análise política são de "importância essencial à nossa formação enquanto sanitaristas e, sobretudo, enquanto cidadãos, críticos e engajados, que efetivamente tenham condições de intervir na realidade", avalia Jamilli Santos, mestranda do ISC/UFBA e que também atua como enfermeira intensivista na Secretaria de Saúde do Estado da Bahia (Sesab). Para a pesquisadora, que também participou do acompanhamento da conjuntura em saúde, a medida permite o entendimento sobre as políticas acompanhadas sem vieses.

Jamilli também destaca o estímulo dado pelos docentes envolvidos no OAPS aos bolsistas, com sua "vasta experiência na docência – capacidade de orientação e desenvolvimento intelectual; militância – engajamento ético na defesa dos ideais da Reforma Sanitária Brasileira desde seus primórdios; e produção científica – inúmeras e renomadas publicações" para a reflexão crítica e crescimento como cidadãos e sujeitos capazes de intervir na sociedade.


Maria Gabriele de Almeida
"O trabalho desenvolvido no OAPS possibilitou um crescimento profissional e pessoal, ampliando a minha capacidade de análise crítica dos fatos, possibilitando levar determinadas discussões para outros espaços de convivência pessoal. Além disso, foi uma honra poder desenvolver processo de trabalho com grandes mestres do campo da Saúde Coletiva e com todos os colegas de equipe."

Pouco após concluir a graduação de Saúde Coletiva no ISC/UFBA, Maria Gabriele começou sua atuação como bolsista do Observatório de Análise Política em Saúde. As atividades incluíram a coleta de dados para análise e produção do grupo e a construção de um projeto de pesquisa. Para ela, "o acompanhamento dos fatos relacionados à conjuntura nas mídias possibilita ter um olhar mais amplo do que é divulgado e da grande influência que o meios de comunicação têm sobre a população, bem como nas decisões do nosso país".

Maria destaca que o trabalho no eixo "Análise do Processo da Reforma Sanitária Brasileira no Período 2007 a 2016" estimulou o aprofundamento na área e a produção do conhecimento. Recentemente, ingressou na Residência Multiprofissional em Saúde Coletiva com área de concentração em Planejamento e Gestão em Saúde. Sua participação no OAPS continua como parte de uma proposta do programa da residência.


Maria Clara Guimarães
"Do ponto de vista pessoal [atuar no CDV e no OAPS] é bem importante para retomada e alimentação da pesquisadora que estou me constituindo. Habilidades inatas e apreendidas são exercitadas durante as atividades desenvolvidas no grupo. Além disso, o trabalho tem permitido a retomada do meu projeto pessoal de entrada no doutorado".

Com um pé no Centro de Documentação Virtual (CDV) e outro no Observatório de Análise Política em Saúde (OAPS), Maria Clara Guimarães participou da construção e implementação do CDV e hoje acompanha o desenvolvimento e a incorporação de novos projetos no OAPS como integrante da equipe operativa dos dois espaços. Maria Clara colabora para o aprimoramento de ambos os sites – ajustes, atualização de informações, análise de estatísticas, acompanhamento de sugestões de incorporação de acervo do CDV, entre outras atividades.

A sanitarista acredita que o contato com pesquisadores/as de longa trajetória é importante para o aprendizado e formação de novos pesquisadores. "As formas como as produções são conduzidas, bem como a observação de como as análises são construídas, são extremamente enriquecedoras". Da mesma forma, Clara acredita que a circulação de informações, por meio da divulgação do que está sendo produzido no interior dos grupos de pesquisa, no OAPS e no CDV, permite que os trabalhos sofram as críticas necessárias para o aprimoramento.


Tatiane de Oliveira Silva
"Poder contar com a orientação e acompanhamento de pesquisadores de reconhecido poder técnico e intelectuais orgânicos do movimento da RSB torna minha participação no OAPS ainda mais produtiva. Nessa relação, há estímulo constante ao estudo e à produção científica de qualidade, mas também o convite à militância e ao posicionamento diante dos fatos. Isso que faz com que as atividades do OAPS não se limitem à dimensão acadêmica, à obtenção de produtos científicos exclusivamente, mas consiste num processo de formação de sujeitos, numa dimensão social e política."

As discussões e os textos produzidos pelo Observatório de Análise Política em Saúde (OAPS) contribuíram para a tese de doutorado recém-concluída de Tatiane, que estuda a Reforma Sanitária Brasileira (RSB) com foco na área de medicamentos e assistência farmacêutica. "Tive a feliz oportunidade de articular contribuições dos dois eixos que participo, tornando esse momento do doutorado muito proveitoso". A pesquisadora se refere à atuação nos eixos "Análise do Processo da Reforma Sanitária Brasileira no Período 2007 a 2016" e "Políticas de Medicamentos, Assistência Farmacêutica e Vigilância Sanitária" do OASP. Em ambos, Tatiane analisa os fatos políticos e suas repercussões na RSB relativas às políticas de medicamentos e assistência farmacêutica, com foco na atuação do Estado brasileiro.

Tatiane participou desde a construção do projeto Análise de Políticas de Saúde no Brasil (2003-2017), que concorreu ao edital do CNPq - Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico. "Daquele primeiro momento até agora, o entendimento dos objetivos do Observatório e o próprio processo de trabalho nos eixos para que aqueles fossem alcançados foi sendo conformado coletivamente. Isso possibilitou, não só a mim, mas para todos os demais dos eixos que participo, um rico processo de aprendizagem".

Para Tatiane, o acompanhamento dos fatos realizado no OAPS possibilita um "acúmulo difícil de ser produzido em outra oportunidade na academia. Isso porque é possível ter noção de uma totalidade de maneira relativamente rápida e sistemática a partir do trabalho coletivo. Assim, além dos produtos científicos específicos, esse processo nos situa como sujeitos em potencial, desenvolvendo aptidões críticas". A pesquisadora, que também atua como docente do curso de Farmácia da Universidade Estadual de Feira de Santana, acredita que a experiência no OAPS proporcionará um retorno positivo nas atividades de ensino, pesquisa e extensão que desenvolve. "Inclusive, o Observatório já integra a referência das disciplinas que leciono e das demais atividades".


Ana Cláudia Alves Santos Sousa
"Diante do que vivo, da oportunidade do espaço que estou e reconhecendo de onde vim, vislumbro claramente os ganhos que tenho tido no percorrer da minha trajetória. Ganhos relacionados ao saber enquanto conhecimento que implica a produção de uma visão crítica e a realização de uma prática reflexiva na Residência Multiprofissional. Com a certeza que ainda nada sei e seguindo os passos de mestres que admiro, tenho motivações pela pesquisa, pela reforma da sociedade, pelo desejo de servir ao povo e modificar as práticas na saúde através da minha formação como Sanitarista."

"Lembro-me como hoje, quando ingressei no grupo, cheia de medos, anseios, expectativas e aspirações de uma recém-formada em Saúde Coletiva, onde a necessidade de dissociar a ‘teoria da prática’ se mantinha latente. Durante a caminhada no projeto venho me forjando a ser pesquisadora – em uma relação constante de compreender e fazer pesquisa, a buscar o conhecimento através de idas e vindas nos conceitos e a reformular, através disso, que, de fato, o que existe é a ‘práxis’, a teoria reflexiva que nos permite a ação". Para Ana Cláudia, a experiência no Projeto Análise de Políticas de Saúde no Brasil tem sido um divisor de águas para sua formação profissional e, especialmente, pessoal.

Ana Cláudia foi bolsista do OAPS e também ingressou na Residência Multiprofissional em Saúde Coletiva. Participou de atividades como a produção de textos para a Matriz de Acompanhamento do OAPS, atualização da linha do tempo do eixo "Análise do Processo da Reforma Sanitária Brasileira no Período 2007 a 2016", debate sobre a conjuntura, entre diversas outras. Na Residência, elabora o subprojeto de pesquisa "O Conselho Municipal de Saúde de Salvador e sua Agenda Política", vinculado ao OAPS. Ana Claudia qualifica a relação com os "mestres" como rica, humana, amorosa e sensível. Para a agora residente, o ambiente acadêmico do ISC proporciona uma troca de saberes e a oportunidade de reflexões e transformações críticas.


Thadeu Borges Souza Santos
"A gente conseguiu identificar atores importantes que estavam fazendo essas pesquisas e esse caminho ‘para fora’ do Instituto de Saúde Coletiva, seja nacionalmente ou internacionalmente, conseguiu avançar muito".

Com atuação em dois eixos temáticos do Observatório – "Trabalho & Educação Permanente no SUS" e "Modelos de Gestão Hospitalar no SUS", ambos coordenados pela prof.ª Isabela Cardoso (ISC-UFBA), Thadeu Santos tem uma ligação com o Projeto Análise de Políticas de Saúde no Brasil desde o início. Enfermeiro, graduado pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB), em Jequié, Thadeu atuou na área assistencial até 2010, quando prestes a concluir o mestrado em Enfermagem iniciou sua trajetória de docência em dedicação exclusiva na Universidade Federal do Vale do São Francisco. A partir desse momento, se aproximou do universo da saúde coletiva, da análise de políticas de saúde e das reflexões sobre atenção hospitalar, "uma angústia que a parte assistencial e técnica não supria", o que o levou a ingressar no doutorado em Saúde Coletiva (ISC/UFBA) e, pouco tempo depois, a se aproximar do Observatório.

"A oportunidade no Observatório coincidiu com meu momento de qualificação do projeto que, com isso, acabou sendo incorporado ao grupo de Gestão do Trabalho e Educação em Saúde [eixo temático "Trabalho & Educação Permanente no SUS"]. A nossa preocupação é a dimensão dos recursos humanos em saúde, em específico os profissionais de saúde que atuam nas unidades hospitalares. Mas, com recorte do estudo, eu acabei seguindo para a macrogestão da atenção do sistema de saúde, a parte que trata sobre o sistema hospitalar, a rede de atenção hospitalar dentro desse sistema de saúde. Com isso, a pesquisa começou a criar uma certa vida própria de eixo e, na construção do site do Observatório, um dos eixos foi a Gestão Hospitalar no SUS", relembra.

Thadeu passou a pensar a perspectiva do mapeamento como um dos objetivos específicos da pesquisa para compreender a distribuição dos serviços hospitalares dentro do território (o que ficou como um estudo paralelo) e, a partir da observação por níveis de gestão – tomando a macro, meso e microgestão do sistema de saúde, dimensionar estudos que pudessem abarcar a capacidade da gestão do sistema e dos serviços de saúde. "A partir desse estudo, eu consegui abraçar o desafio que estava sendo proposto pelo prof. Jairnilson [Paim] e prof.ª Isabela [Cardoso] de construir um pensamento, uma estruturação, do que seria uma linha de pesquisa de gestão hospitalar no SUS. [...] No esforço para consolidação do eixo hoje já somos três doutorandos: eu, Silvânia Sales de Oliveira e Laise Rezende de Andrade", conta.

Em entrevista para o boletim, Thadeu explicou como o Observatório contribuiu para viabilizar financeiramente a construção de um banco de dados de 54 entrevistas com gestores do nível central e de unidades hospitalares da rede própria, tanto da gestão direta como também indireta, além da revisão sistemática nacional e internacional, tomando três grandes bancos de dados (Lilacs, Scielo e Web of Science).

Outro ponto enfatizado é o diálogo com parceiros e outros atores de várias regiões do Brasil e de outros países com interesse na investigação da temática da gestão hospitalar, sua complexidade na dimensão dos recursos humanos, financiamento, redistribuição das novas unidades planejadas e construídas para ampliação do acesso ou melhor distribuição nos territórios. Durante um doutorado-sanduiche concluído recentemente em Lisboa (Portugal), Thadeu se aproximou da pesquisadora Zulmira Hartz e suas perspectivas teóricas. "Nossa preocupação é onde estão os modelos de gestão e, nesse momento, fizemos uma aproximação com a temática do público que não é estatal, a nível internacional, que é uma novidade sendo incorporada no Sistema Único de Saúde, uma coisa muito recente da reforma administrativa e da implementação dessa reforma administrativa nesse percurso histórico mais recente, que também tem um envolvimento de organizações internacionais que fomentam isso. Essa é uma tendência", explica.


Ana Maria Freire de Lima Almeida
"Em tempos de crise política, econômica e tantas ameaças ao SUS a motivação para continuar a acompanhar as políticas de saúde, compreender os impactos negativos dessa conjuntura e principalmente agir de forma organizada para não perdermos aquilo que já foi conquistado é cada vez maior."

Ana Maria é aluna do Mestrado em Saúde Comunitária (ISC/UFBA), atuou como bolsista do Projeto Análise de Políticas de Saúde no Brasil em 2014 e participa do grupo de pesquisa, coordenado pela prof. Sônia Chaves, vinculado ao eixo temático "Análise de Políticas de Saúde Bucal no Brasil". Em entrevista ao boletim do OAPS/CDV, ela conta que o trabalho de monitoramento e análise das políticas, através do acompanhamento de sites do Ministério da Saúde e de entidades odontológicas, a coleta de dados, a participação em discussões e a redação de artigos tem sido fundamental para o crescimento como pesquisadora num contexto de "trabalho coletivo, bem organizado e de qualidade".

"O trabalho no Observatório envolve um processo de formação política, com desenvolvimento de uma leitura cada vez mais crítica da realidade brasileira, assim como a possibilidade de consolidar um espaço formador de opinião na perspectiva da Saúde Coletiva e da Reforma Sanitária Brasileira", avalia. Outro ponto de destaque é a convivência com pesquisadores/as experientes e a troca de informações com colegas, que constitui um aprendizado diário e decisivo "para a formação política tão necessária aos ingressantes no campo da Saúde Coletiva oriundos de uma formação ainda muito ligada ao modelo médico hegemônico".


Mayara Freitas
"O trabalho como pesquisadora iniciante tem sido um desafio diário. Para mim, fazer pesquisa sempre foi algo distante e pouco estimado, porém, ingressar no Observatório como primeira experiência tem mudado essa perspectiva. Ao mesmo tempo que percebo o quanto análise política em saúde é algo complexo e desafiador, percebo também o meu crescimento e aprendizado pessoal e acadêmico em meio a uma equipe de pesquisadores tão conceituada".

A primeira experiência em pesquisa de Mayara Freitas, aluna da graduação em Saúde Coletiva (ISC/UFBA), foi no Observatório de Análise Política em Saúde. Como parte de suas atividades como bolsista de iniciação científica, ela visita diariamente sites de entidade médicas para coletar matérias relevantes para análise da conjuntura atual, faz levantamento de materiais bibliográficos sobre temas relacionados ao posicionamento das entidades, participa de reuniões quinzenais e contribui para a elaboração de textos, artigos e outros produtos de pesquisa.

Para Mayara, acompanhar os sites das entidades médicas, bem como as notícias compartilhadas pelo grupo dos diversos segmentos e entidades ligados à saúde, tem sido uma experiência interessante e desafiadora. "São diferentes formas de se reproduzir os mesmos fatos de acordo com os interesses de cada segmento. Perceber e analisar essas contradições tem contribuído para minha formação política, crítica e reflexiva", acredita.


Camila Reis
"Independentemente das dificuldades que iremos enfrentar, precisamos lidar com todas as questões que surgirem, buscando entender e superar as relações complexas e tão desiguais existentes, contribuindo assim para que de fato nossos direitos sejam cumpridos."

"De onde eu vim não fui estimulada a refletir para além do que se vê ou se escuta. Venho de uma família pobre e que não teve a oportunidade de estudar. Além disso, minha família tinha a concepção de que pobre não conseguia ter uma vida diferente, já que não tínhamos espaço para buscar melhorias e nem um futuro diferente. Fui a primeira pessoa da minha família a ir para a universidade e, como se não bastasse, escolhi um curso que ninguém conhecia. Para cursar a graduação abandonei um concurso público, o que no mínimo soava estranho para minha família".

A trajetória de Camila Reis, 26 anos, é marcada por muitas descobertas. Da chegada ao Instituto de Saúde Coletiva (ISC/UFBA) e o primeiro contato com a pesquisa – "lembro de não saber nem o que era currículo lattes, algo tão comum no mundo acadêmico" – até a atuação como pesquisadora do eixo "Análise do Processo da Reforma Sanitária Brasileira no Período 2007 a 2016" e o desenvolvimento de estudo sobre "A saúde no Governo Dilma Rousseff (2011-2014)" o caminho foi de muito aprendizado.

"Trago toda essa história mais íntima para que possa entender de onde eu venho e para onde tenho tentado caminhar. Desde o momento em que cheguei ao ISC fui me modificando e acrescentando elementos positivos. Os dois primeiros semestres foram duros para mim, pois tinha uma dificuldade pessoal em me expressar, característica herdada da minha criação e de onde eu venho. Alguns elementos foram essenciais para o meu processo de crescimento pessoal e também profissional, alguns como a minha inserção nos projetos de pesquisa, troca de experiência com pesquisadores renomados, inserção no movimento estudantil e troca de experiência com amigos e colegas. Por algum motivo na minha caminhada encontrei pessoas que estavam abertas a me estimular a crescer e amadurecer, o que também foi essencial", conta.

Camila relata que sua inserção no Observatório trouxe a necessidade de se debruçar sobre a análise política e participar de componentes curriculares específicos sobre o tema, pelo qual acabou se apaixonando. O acompanhamento dos fatos marcantes relacionados às políticas de saúde, por meio do monitoramento de sites, tornou-se um exercício diário de crítica sobre o que se lê e/ou escuta, sobre os fatos produzidos e as relações existentes nos espaços. "Não é uma tarefa fácil, porém é um processo de amadurecimento profissional e também pessoal, que sem dúvida vai além da pesquisa científica. Essa ação estimula em mim a vontade de exercer meu compromisso enquanto cidadã e lutar por nossos direitos, buscando trazer para essa luta sujeitos que possam construir junto", avalia.

Outro aspecto positivo apontado por Camila é o contato enriquecedor com estudiosos experientes na área de política, o que possibilita o diálogo e a reflexão conjunta, proporcionando uma visão ampliada sobre os diversos assuntos em questão. "Essa prática só é possível porque esses pesquisadores (as) estão abertos a dialogar e trocar experiências. O que nem sempre pode acontecer em alguns espaços. Acho de extrema relevância os estudantes participarem desde a sua graduação de espaços de reflexão junto a esses pesquisadores (as), pois para além do amadurecimento profissional, estimula o processo de formação crítica-reflexiva a que o curso se propõe", opina.

"A cada conversa, reflexão, despertava em mim motivações para lutar. A troca e o apoio dos pesquisadores foram essenciais para meu crescimento. Trago a vontade de contribuir para trazer uma realidade diferente para as pessoas. Muito do que me motiva são motivações de outras tantas pessoas que conheço. Acredito que com tudo que fui acumulando no decorrer desses anos e por todas as motivações que carrego comigo tenho a oportunidade de lutar por uma realidade diferente, por uma saúde de qualidade e por todos os direitos que temos enquanto cidadãos".

 
 
 
 
 
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